Tres sonetos
I
Cuando miro hacia mí no me percibo.
Tengo tanta manía de sentir
que me extravío a veces al salir
de estas sensaciones que recibo.
Este licor que bebo, el aire que respiro
son propios de mi modo de existir,
y nunca sé cómo he de concluir
las sensaciones que a mi pesar concibo.
Ni nunca, realmente, comprobé
si en verdad siento lo que siento. ¿Yo
seré como parezco en mí? ¿Seré
como me creo verdaderamente?
Hasta en las sensaciones soy un poco ateo,
ni sé bien si soy yo quien en mí siente.
II
La Praça da Figueira en la mañana,
cuando el día es de sol (como sucede
siempre en Lisboa), nunca en mí se olvida,
aunque apenas sea memoria vana.
Hay tantas cosas más interesantes
que ese lugar tan lógico y plebeyo,
pero lo amo, incluso así... ¿Qué sé yo
por qué lo amo? Importa poco. Adelante...
Esto de sensaciones sólo vale la pena
si no fijamos la mirada en ellas.
En mí ninguna de ellas es serena.
Además, nada en mí es cierto ni está
de acuerdo consigo... Las horas bellas
son las de los otros, o las que no hay.
III
Mira, Daisy: cuando muera tú has de
decirle a mis amigos allá en Londres,
aunque no lo sientas, que tú escondes
el gran dolor de mi muerte. Irás de
Londres a York, donde naciste (dices...
que nada de lo que tú digas creo),
a contarle a aquel pobre muchachito
que me dio tantas horas tan felices,
aunque no lo sepas, que he muerto...
Incluso a él, a quien tanto creí amar,
nada le ha de importar... Ve luego a dar
la noticia a esa extraña Cecily
que pensaba que yo sería grande...
¡Rayos partan la vida y a quien por ella ande!
Três sonetos
I
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Tenho tanto a mania de sentir
que me extravio às vezes ao sair
das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
pertencem ao meu modo de existir,
e eu nunca sei como hei-de concluir
as sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
as sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
II
A Praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.
Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu
Porque o amo? Não importa nada. Adiante...
Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar p’ra elas.
Nenhuma d'elas em mim é serena...
De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros, ou as que não há.
III
Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos ai de Londres,
Que embora não o sintas, tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de
Londres p’ra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito...)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes
Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos ai de Londres,
Que embora não o sintas, tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de
Londres p’ra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito...)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes
(Embora não o saibas) que morri.
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará. Depois vai dar
A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!...
Álvaro de Campos (Tavira, Portugal, 1890 — ?), de Un corazón de nadie, Galaxia Gutenberg.
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